Por alguns anos, parecia que a moda havia iniciado uma transformação sem volta. Inclusão, diversidade corporal e representatividade deixaram de ser pautas periféricas para ocupar o centro das discussões da indústria. Passarelas passaram a receber modelos de diferentes etnias, idades e biotipos, enquanto marcas buscavam demonstrar alinhamento com uma sociedade cada vez mais atenta à pluralidade dos corpos.

Mas a moda, como a própria história comprova, é feita de ciclos. E alguns deles retornam carregando significados que vão muito além das roupas.

Durante a última Paris Fashion Week masculina, um detalhe chamou a atenção de quem acompanha os movimentos da indústria: o retorno de silhuetas extremamente ajustadas ao corpo. A Prada apresentou versões atualizadas da calça skinny, enquanto Dolce & Gabbana também apostou em modelagens enxutas que valorizam corpos longilíneos e magros. À primeira vista, trata-se apenas de uma mudança estética. Mas, observada dentro do contexto atual, essa escolha parece dialogar diretamente com um fenômeno que extrapola as passarelas: a ascensão da chamada "era Mounjaro".

As canetas emagrecedoras transformaram-se em um dos assuntos mais influentes da cultura contemporânea. Inicialmente desenvolvidas para fins médicos, passaram rapidamente a ocupar espaço nas redes sociais, nos consultórios e nas conversas sobre beleza, bem-estar e estilo de vida. Em pouco tempo, a perda acelerada de peso deixou de ser apenas uma questão de saúde para se tornar um novo símbolo de desejo.

Como frequentemente acontece, a moda captou essa mudança de comportamento.

O retorno do skinny surge em um momento no qual a magreza volta a ser associada a valores como disciplina, controle, sucesso e status. A roupa não cria essa narrativa sozinha, mas funciona como um reflexo visual de transformações que já estão acontecendo na sociedade. Quando grandes maisons resgatam silhuetas que privilegiam corpos extremamente delgados, elas também ajudam a reforçar quais corpos estão sendo valorizados naquele momento cultural.

O aspecto mais significativo desse movimento talvez seja sua expansão para além do universo feminino.

0206

Historicamente, a pressão estética relacionada à magreza sempre recaiu de forma mais intensa sobre as mulheres. Eram elas as principais destinatárias de tendências, dietas e padrões corporais frequentemente inalcançáveis. Hoje, porém, a dinâmica parece diferente. Ao apresentar coleções masculinas construídas sobre a mesma lógica visual do corpo magro e esguio, marcas como Prada e Dolce & Gabbana indicam que esse ideal estético está se tornando cada vez mais universal.

A mensagem implícita é clara: o corpo desejável, independentemente do gênero, é um corpo magro.

Essa homogeneização dos padrões acontece justamente quando o debate sobre diversidade corporal parece ter perdido espaço dentro da indústria. Há poucos anos, jornalistas, consumidores e criadores questionavam abertamente a ausência de modelos negras, gordas, maduras ou pertencentes a diferentes grupos étnicos. A representatividade tornou-se uma exigência pública, e as marcas responderam com mudanças que pareciam sinalizar uma nova direção para a moda.

Atualmente, entretanto, observa-se um movimento mais silencioso. Sem grandes anúncios ou declarações, as passarelas voltam a exibir corpos cada vez mais semelhantes entre si. O tema da diversidade já não ocupa o mesmo protagonismo, enquanto a estética da magreza recupera terreno de forma gradual, porém consistente.

008.jpg024.jpg

Isso não significa que a moda esteja abandonando completamente os avanços conquistados nos últimos anos. Mas indica que o centro do desejo coletivo pode estar mudando novamente.

O problema não está na magreza em si. Tampouco na escolha individual de quem utiliza medicamentos para perda de peso sob acompanhamento médico. A questão surge quando um único padrão corporal volta a concentrar o prestígio, a admiração e a validação social. Quando tendências, algoritmos, celebridades, medicamentos e passarelas apontam para a mesma direção, cria-se um ciclo poderoso de influência.

A magreza gera desejo. O desejo impulsiona o consumo. O consumo reforça a centralidade da magreza.

Nesse contexto, o retorno do skinny deixa de ser apenas uma tendência de temporada. Ele se transforma em um símbolo de algo maior: a reconfiguração dos padrões de beleza em uma era marcada pela popularização das canetas emagrecedoras e pela retomada de antigos ideais estéticos.

A pergunta que fica é se estamos assistindo ao simples retorno de uma modelagem ou ao ressurgimento de uma cultura que, durante muito tempo, definiu quem merecia — ou não — ocupar espaço no imaginário da moda.

 

Por Sérgio Antunes.